Desculpe-me leitor, seja lá quem você for, mas não estou interessada em você. Este blog, as vezes, serve somente para eu lembrar futuramente dos meus momentos de vida, das conclusões e reflexões que tenho… Então hoje faço esse post para registrar um pensamento, uma reflexão. Faço publicamente, pois gosto de pensar em voz alta.
Enfim, vamos lá:
Foram pouquíssimas as vezes na minha vida em que procurei ativamente por alguém novo, querendo me apaixonar. Na minha vida, em geral as pessoas aparecem espontaneamente, “pipocam do nada”. Mas em alguns momentos, nos sentimos tão desencantados com as pessoas que estão ao nosso redor, que é um alívio poder usar ferramentas para conhecer novas pessoas, como sites de relacionamentos, chats, etc., simplesmente porque, desta forma, você sabe que está indo além do horizonte que frequentou nos últimos tempos, está invadindo gramas mais verdes de locais não explorados… Há uma possibilidade de aparecer alguém realmente novo, sem os problemas que marcaram as fases anteriores da nossa vida… Afinal, você está navegando por mares novos, saindo do seu próprio círculo de amizades. Ufa, agora tudo vai mudar. Essa deveria ser a sensação, é assim que deveria ser.
A verdade é que a busca por novas pessoas, seja online ou offline, é bem mais dura do que se pode imaginar. Não, as pessoas “desconhecidas” e “sem referências de amigos” não são mais legais, mais íntegras, mais interessantes… Não são mais nada, além de somente mais desconhecidas mesmo! Exceto em primeiros momentos de encantamento (que podem até durar meses), não fica na boca um gosto de algo fresco, renovado, e sim um gosto amargo de “já vi isso antes”, “vai me dar trabalho”, “não vai dar certo”… Mas isso vem junto com um pensamento de que talvez a gente deva tolerar, afinal estamos ainda só conhecendo a pessoa, melhor não julgar. Claro, podemos começar de um ponto muito mais avançado, se a busca é online… Fazendo um “pre match” de gostos, hobbies, hábitos… Realmente dá para achar pessoas com gostos bem interessantes, não nego isso. Então intelectualmente, pode ser bastante estimulante…
A questão é mais complicada do que parece ser: gostos e cultura parecidos não fazem, de forma alguma, você combinar com a pessoa. É preciso combinar muito mais: momento de vida, princípios, valores, frustrações, desejos, energia, jeito de sentir as coisas, pessoas e o mundo… São coisas muito profundas e, ao mesmo tempo, sutis. Descobrir se existe compatibilidade nesses níveis só é possível com tempo, com convivência… Esperamos que se alguém tem gostos parecidos, tenha vivido coisas parecidas e tenha reflexões também similares sobre a vida, anseios parecidos. Mas isso é verdade?
Não, nem de longe.
Quando buscamos alguém, principalmente online, tentamos “filtrar” muito bem antes de conhecer pessoalmente… E mesmo depois que conhecemos, precisamos impor limites e um ritmo diferente, afinal não confiamos na pessoa, nem sabemos bem de onde ela veio… “Veio da internet”, pode até ser o maníaco do parque. E se a pessoa só quer sexo? Ou no mínimo pode ser alguém problemático, como posso confiar? Como posso me entregar? E de “corpo e alma”, ainda por cima?
Então é preciso fazer um checklist totalmente evil e injusto antes de permitir que alguém comece a mexer com nossos sentimentos e desejos mais profundos:
- Gostos parecidos? OK
- Cultura / nível intelectual parecido? OK
- Fisicamente atrativo? OK
- Valores parecidos? OK
- Princípios? OK
- Jeito de encarar a vida: OK
- Não fumante: OK
- Visões de futuro: OK
- Caráter: OK
- Gosta de bichos: OK
- etc.
- etc.
- etc.
…peraí… É sério que consigo validar isso tudo de verdade ANTES de conhecer alguém? Além disso, coloquei os itens em uma ordem intencional, misturando trivialidades de hábitos e gostos com coisas mais importantes… Pra mostrar como é ridículo, é um checklist, mesmo que exista um longo formulário, um longo texto descrevendo cada tópico, no final de contas o que importa é: BATE? COMBINA? Sim ou Não. É isso que tentamos responder para cada um dos tópicos.
Muitas vezes não conseguimos responder a esse checklist nem mesmo depois de conhecer alguém por meses e meses… Mas online… é melhor validar o máximo de coisas possíveis antes de encontrar, certo? Até porque a expectativa ao encontrar pessoalmente alguém que combina muito intelectualmente, seria a de seguir direto para uma paixão maluca, então é preciso cautelosamente validar isso antes de seguir pro amor eterno: A mente quer loucamente, então o corpo há de querer loucamente também… E paixão + compatibilidade intelectual = vai virar amor. Não?!
Pois é… Não. Não é tão simples assim.
Sim, você pode combinar intelectualmente. E sim, você pode curtir a pessoa fisicamente. Isso tudo pode resultar em uma série de encontros fenomenais… Mas isso basta? É uma fórmula de sucesso, que vai dar certo “lá na frente”?
Sabe aquilo de que não existe príncipe encantado? Que não existe nada perfeito? Isso é um censo comum, certo? Então pensa comigo: você entra em um site e “pede” por um monte de coisas que gosta, das mais triviais até as mais profundas. Check, check, check, está aprovado, então encontra pessoalmente. Qual a expectativa que você criou durante todo o processo? Sendo bem sincera, existem duas possibilidades:
1) A pessoa não passou em todos os requisitos, mas você aceitou encontrar mesmo assim porque está desesperado(a). Como a margem de erro é enorme, melhor iniciar vários contatos, com várias pessoas e, se possível, conhecer várias delas pessoalmente. Uma hora aparecerá uma melhorzinha, que poderá ser escolhida como “a tal”. Você deixará de estar sozinho(a).
2) A pessoa passou em todos os requisitos e a partir de agora você vai encará-la oficialmente como seu príncipe encantado. Afinal, é bom demais pra ser verdade, melhor mergulhar de cabeça, agarrar com unhas e dentes. Agora vou ser feliz. Isso parece algo equilibrado e saudável?
Existem falhas em todas as fases desse processo. E olha que, como Gerente de Projetos, entendo bem de processos e de falhas. Primeiro, o formulário é preenchido errado… Não porque as pessoas mentem descaradamente, mas porque elas fantasiam e idealizam as respostas. É raro ver alguém realmente sincero! Depois, porque quem lê as respostas também fantasia e idealiza… Acha que entendeu o conteúdo do livro todo só por ler a capa… Compara com suas próprias experiências pessoais e acredita que a pessoa chegou àquelas respostas através das mesmas experiências… Enfim, distorcemos uma verdade que, em sua essência, já era uma mentira antes de ser lida. Pra continuar, queremos tanto acreditar naquilo tudo que, quando conhecemos pessoalmente, esperamos uma explosão de paixão maluca, algo que faça jus e tire o gosto ruim que ficou na boca com todos os nossos relacionamentos anteriores… Afinal, agora estamos conhecendo alguém que realmente combina conosco. Nosso príncipe encantado. Não?
Pois é… Não de novo.
Onde eu quero chegar: na internet tem tanta gente que, obviamente, você precisa fazer filtros para começar a conversar com alguém, ainda mais para marcar um encontro. Mas filtrar é igual a eliminar pessoas com um critério fechado, com um “achismo”… Então sim, aquele que te parece melhor em um perfil de site, pode ser o pior… E aquele que não conseguiu escolher as palavras certas ao falar de si no perfil, ou foi infeliz na hora de tirar a foto, pode combinar absolutamente com você. É um processo cruel e cheio de erros. Começa assim, e continua assim durante todo o tempo… Com filtros, cortes, julgamentos. É uma loja onde você vai escolhendo os produtos – adorou o rótulo e começou a ler as informações nutricionais. Éca, você usa esse adoçante na fórmula? MEDO! Vou devolver a-g-o-r-a para a prateleira. Ou não, gostou de tudo e experimentou… Mas achou o gosto muito doce… Muito amargo… Muito algo. Ou quer experimentar outros, pois foi gostoso, mas nada assim tão emocionante que te faça esquecer dos outros potes disponíveis na prateleira… Só que são pessoas, não produtos!
Acho que ficamos muito cruéis, seletivos, até mesmo frios… Cansamos de escolher, de rejeitar… Cansamos de ser escolhidos, de ser rejeitados… E ao começar uma nova conversa, cansamos de dizer as mesmas coisas, de perguntar as mesmas coisas… É uma dança social, virtual, mas ainda preformatada… Quantas vezes uma conversa já chegou na pergunta “Me fala como você é?”. Ou começou assim?! Pergunta cretina, com objetivo cretino e resposta cretina.
Da mesma forma que você elimina pessoas do seu leque de opções, durante todas as fases do processo, pessoas eliminam você. E isso não acontece de forma justa, nem tampouco a rejeição/exclusão vem com uma carta explicando os motivos da demissão por justa causa. De repente a pessoa só acordou pensando “poxa, estou falando com muitas pessoas ao mesmo tempo… Hoje vou fazer “uma rapa”, e deixar só no máximo 3″. E nessa, você roda. Ou sua resposta fica pra amanhã, pra depois… E acaba nunca acontecendo. Morre na praia.
Não é mais fácil achar alguém que combine perfeitamente com a gente na internet, do que é no mundo real. A questão facilitadora é que você consegue fazer várias tentativas simultâneas (no mundo real é bem mais difícil, mas é possível também), e consegue fazer interrogatórios e preencher formulários, checklists, ver fotos, etc etc etc… Tudo para evitar seguir adiante com alguém muito incompatível. Essa parte não acho ruim, mas como um exercício, tópicos que virem assunto para longas conversas, e não para usar como um filtro em si – respondeu sim passou, respondeu não foi cortado.
Minha dificuldade com esse processo todo é só uma: sou muito monogâmica. Não consigo dar atenção para várias pessoas ao mesmo tempo – mesmo que sejam somente conversas bem preliminares, isso me consome, me mata. Até tentei, mas logo reconheci que não há como agir diferente – preciso dedicar minha atenção a uma pessoa por vez, mesmo que seja alguém por quem não tenho sentimento algum ainda. Então comecei essa saga toda assim: foco em um… até esse um sumir. Foco em outro… até esse outro sumir. Em alguns casos, eu que parei com o contato. E assim por diante, por muito tempo… Até finalmente chegar a conclusão que bom… Sou chata demais, difícil demais, complicada demais, exigente demais… Sou sempre a 4a opção, exceto para aqueles que EU não quero. Sou aquela que não vale a pena insistir. Todas são mais viáveis e interessantes que eu (posso continuar “engrossando” a lista aqui). Esse processo é vil, extremamente destrutivo… E ninguém diz isso pra você antecipadamente! Não ache que eu realmente penso que não tenho valor – ao contrário! Mas depois de meses nesse esquema, eu não tinha mais autoestima alguma.
Se as pessoas somem durante as conversas, antes mesmo de acontecer um primeiro encontro… Devo mesmo ser um bicho muito estranho, não é? Isso me deixou chateada, desencantada, cansada, deprimida… E em algum ponto, foi mais forte que eu. Desisti.
Veja bem, não desisti de buscar alguém. Desisti de acreditar que encontraria alguém que valia a pena, que poderia amar - e isso é bem diferente de dizer que desisti de encontrar o amor – até porque pra mim, amor é algo que se constrói ao longo do tempo, não algo que você “acha” por aí. O que “achamos” são pessoas que valem ou não a pena, oportunidades, possibilidades. E pois bem, eu não estava encontrando ninguém que valesse a pena – ninguém que achasse também que eu valia a pena. Essa foi a parte mais frustrante.
Ao desistir, cheguei a conclusão que, por mais que as pessoas passem o dia inteiro postando frases lindas e profundas na internet (ou dizendo lindas coisas em seus círculos sociais), na prática ignoram ou destroem o que há de verdadeiramente bom ao seu redor. As pessoas não valem a pena. Você não vale a pena. Então vamos corrigir aquele checklist lá de cima? Que tal as perguntas e premissas que as pessoas realmente procuram?
- Procuro alguém sincero, mas que não pode ser sincero o suficiente pra incomodar, criticar… Inclusive, certos assuntos são proibidos, não aceito que duvide de mim neste ponto (seja lá qual ponto for, que mexa com honra, integridade, valores).
- Quero alguém atencioso, mas que não me sufoque. Afinal atenção demais é coisa de gente problemática, carente. Se sufoca eu não te quero, mas se não me sufocar de atenção, duvidarei do seu amor.
- Precisa ser independente (afinal, não vou te sustentar nem aguento gente grudenta), mas se eu sumir da sua vida, mostre que me ama se suicidando, mesmo que somente virtualmente, por exemplo no Facebook. Na verdade, você terá de ser dependente de mim até o último fio de cabelo, sem mim você pára de respirar.
- Quero que você dê carinho… Mas nunca direi quando quero receber, afinal você precisa estar em sintonia comigo, precisa “saber” o que eu quero. Amor é isso, ler a mente do outro.
- Também quero alguém culto, mas que não pode me fazer sentir burra. Afinal, meu ego é mais importante que qualquer conhecimento novo que eu possa ter.
- Não aceito ciúmes e não sou ciumenta. Desde que você delete todas as suas amigas da sua vida, e que nunca mencione nada que aconteceu com você no passado. E se fizer isso, qualquer reação ruim que eu tenha, será culpa sua. Afinal, desde que nos conhecemos, o seu passado precisa deixar instantaneamente de existir. Outras pessoas também não existem, só eu sou importante.
- Meus hábitos e manias são sagrados, mas os seus não. Está implícito que você fará sacrifícios na sua vida para se adequar à minha, isso é prova de amor. E já que você vai se adequar aos meus hábitos, não será preciso eu me adaptar aos seus, já que você não terá mais nenhum hábito diferente do meu depois que provar seu amor para mim.
- Fisicamente, preciso de alguém cujo objetivo de vida seja me satisfazer. Mas precisa atingir o climax do próprio prazer ao fazer isso, afinal me dar prazer deve ser o prazer máximo da sua vida. E se não aguentar o batente, é prova de que não me ama mais. Claro que durante esse processo todo, não vou dar dicas nem dizer o que realmente gosto, pois a graça é você desvendar meus mistérios, “sacar” o que eu quero. Como já disse acima, casais em sintonia fazem isso, lêem mente.
- Trate de se cuidar e ser um gostosão, mas não muito. Tem uma dose certa. O lance é que independente do que eu acho, você precisa ter uma aparência compatível com o que minha família e amigos esperam, do contrário vou me sentir uma fracassada.
- E quero que você mude por mim. Não sei o que, nem quando… Nem estou dizendo que há algo errado em você. Só que essa é a maior prova de amor que existe: alguém que abdica de algo que gosta muito, que muda de hábitos, só pelo amor de outra pessoa. Certamente vou querer uma prova de amor desse tipo, vá anotando.
- E por fim, declare-se para mim antes de eu me declarar para você. Não sou trouxa de te amar antes que você me ame.
Ah, vou parar por aqui pois já deu pra entender bem… e isso sem nem entrar em coisas polêmicas, como dinheiro e religião!
Querer e precisar são coisas bem diferentes. Esse é o problema de 90% das pessoas que vemos por aí. Por exemplo, eu posso dizer que quero ser independente… mas preciso de atenção, tenho uma carência emocional… Ou posso realmente ser independente, mas mesmo assim querer atenção, não por precisar, mas por saber que é algo bom e que não fere a minha independência gostar de estar com alguém. São formas muito diferentes de lidar com as mesmas coisas.
Sem esquecer que tudo isso passa por aquela questão da vulnerabilidade. Se não viu o vídeo ainda, clique aqui e veja.
Tá bom, ok… Vou concluir algo!
Isso, de buscar ativamente por alguém novo, aconteceu somente duas vezes na minha vida – uma no início do século (nossa, que incrível poder falar assim!), e outra a partir do meio do ano passado. Ambas as experiências foram ruins e traumatizantes! Achar alguém legal online pode sim acontecer (já aconteceu comigo e com amigos(s) em outras situações), mas funciona melhor quando você está sem muitas expectativas na mente, quando não está filtrando tanto as pessoas com quem fala… Enfim, quando está conhecendo pessoas, não filtrando pessoas. Faz toda a diferença ser surpreendido ao descobrir uma atitude legal de alguém, sem antes ter lido num formulário “em casos assim, reajo desta forma”. É legal descobrir coisas ao longo do tempo… A busca com processos fechados elimina boa parte disso, tira parte da graça ao mesmo tempo que cria expectativas altíssimas quanto aos gostos, valores e atitudes do outro. É um processo muito extenuante.
Então não, se você deseja mesmo conhecer alguém especial, se está magoado(a) e quer dar uma nova chance pro amor (ou suas instâncias mais simples, não precisa ir direto pra algo tão sério), eu não recomendo o cadastro em sites de encontros. Não recomendo mesmo!
E ao mesmo tempo que não recomendo, depois de tantos trancos e solavancos, acredito que achei, em um desses meandros, alguém especial e que faz toda essa fase (e até algumas outras) valer a pena.
E aí, como faz? Site de relacionamento presta? Uso ou não?
Desculpe pela sinceridade, mas o problema é seu. Se decidir tentar, desejo boa sorte!
…e a inspiração para fazer esse desabafo surgiu de uma conversa com um amigo de longa data, a quem estava tentando convencer que, mesmo havendo um percurso cheio de trovoadas, em algum momento pode haver uma reviravolta e, sem muito prévio aviso, tudo pode dar certo. Existem sim pessoas que valem a pena por aí… A questão é que chegar até essas pessoas legais não tem uma fórmula – elas estão escondidas em suas tocas, muito bem camufladas. Você pode tropeçar em uma delas e nem notar – isso acontece todos os dias, na rua, no ônibus, e também em sites de relacionamento online. Abra a mente e preste atenção.